IGI Expo: Integridade no Desporto na Era das Apostas Desportivas
Brasil. – 18 de Novembro de 2025 www.zonadeazar.com No âmbito da IGI Expo, realizada no Centro de Convenções do Hotel Blue Tree Premium Morumbi, em São Paulo, nos dias 12 e 13 de novembro, foi realizado um interessante painel que abordou um tema central nos dias de hoje: a Integridade no desporto na era das Apostas Desportivas.
Durante este painel, representantes de federações, ligas e entidades de monitoramento concordaram em um ponto central: combater a manipulação de resultados exige educação contínua de todos os atores e uma ação coordenada entre clubes, federações, casas de apostas, reguladores e empresas de monitoramento.
Participaram do painel os seguintes especialistas: Alessandro Lisboa, fundador da IGI Expo, Mariana Chamelette, advogada especialista em direito desportivo, Juan Matías Mendez, Direção Técnica de Proteção da Integridade Desportiva na ABC-BET, Fred Justo, da Legitimuz, e Filipe Rodrigues, do IGE, Instituto de Gestão Desportiva.
Apostas, futebol e imagem pública
Os destacados painelistas ressaltaram que, embora o patrocínio das casas de apostas represente hoje uma fonte de receita relevante para o futebol, existe uma percepção equivocada de que o desporto “depende” exclusivamente delas ou que as apostas seriam, por natureza, um risco para a integridade do jogo.
Eles ressaltaram que, nos casos de manipulação detectados, os principais envolvidos costumam ser indivíduos — especialmente atletas — e não os clubes nem as próprias casas de apostas, para as quais a fraude também é prejudicial, tanto em termos de imagem quanto economicamente.
O caso da Federação Paulista: educação e monitoramento
A Federação Paulista de Futebol apresentou um “caso” considerado referência para outras federações brasileiras. Entre as iniciativas destacadas, foram mencionadas:
- Inclusão de conteúdos de integridade nas reuniões técnicas com dirigentes de clubes, antes de cada competição.
- Programas de palestras nos clubes, com visitas presenciais aos plantéis para explicar aos jogadores o que é a manipulação de resultados, como os grupos criminosos costumam abordar os jogadores e quais são as consequências desportivas e penais.
- Capacitação de árbitros e diretores de jogo para que atuem como «sensores» no campo de jogo.
- Parcerias com empresas especializadas em monitorização de apostas, que emitem relatórios técnicos quando detectam padrões suspeitos nos mercados.
Segundo foi explicado, esses relatórios cruzam dados de comportamento dentro do campo (posição, decisões, padrões anteriores do atleta em outros jogos) com informações dos mercados de apostas.
Os casos mais graves resultam na abertura de investigações nos tribunais desportivos e, eventualmente, em sanções aos envolvidos.
Brasil, líder em jogos suspeitos… e em reação regulatória
Um dos dados mencionados é que, em 2022, o Brasil foi o país com o maior número de jogos classificados como “suspeitos” por organismos internacionais de monitorização. Embora a percentagem continue a ser pequena em relação ao volume total de jogos, o número acendeu alertas.
De acordo com especialistas, a nova regulamentação e a maior visibilidade negativa aceleraram a reação de federações, confederações, empresas de dados e operadores, que começaram a tratar a integridade como uma questão estratégica, central para a credibilidade das competições e do próprio mercado de apostas.
Tecnologia e sinais de alerta
Os especialistas detalharam como hoje a manipulação pode ser detectada graças à combinação de:
- Dados internos das casas de apostas (apostas fora do padrão, montantes elevados, concentração de apostas no mesmo mercado, horários muito próximos, mesmo IP ou mesma região de origem).
- Comparação de quotas e movimentos nos mercados internacionais, especialmente em regiões onde se concentra um grande volume de jogo.
- Plataformas de denúncia anónima em federações e confederações, que permitem que adeptos, árbitros ou dirigentes denunciem comportamentos suspeitos.
- Análise de vídeo e comportamento técnico de jogadores e equipas, confrontando jogadas específicas com o histórico do atleta.
Os relatórios produzidos por essas empresas são usados como prova em tribunais desportivos e, conforme indicado, foram validados tanto por instâncias nacionais quanto pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS/CAS) em casos internacionais.
Papel das casas de apostas: de vítimas a aliadas
A partir da Lei 14.790, as operadoras que desejam atuar de forma regulamentada no Brasil devem ter políticas corporativas específicas para combater a manipulação, estar associadas a organismos de integridade e denunciar casos suspeitos às autoridades competentes.
Os painelistas destacaram que, em uma partida manipulada, a casa de apostas costuma ser vítima financeira: perde dinheiro e reputação. Por isso, defenderam que as áreas operacionais e de “trading” devem estar coordenadas com compliance e jurídico, para que os sinais de alerta se transformem em relatórios formais e não sejam tratados como uma “perda normal do negócio”.
Ao mesmo tempo, reconheceram que, historicamente, muitas operadoras hesitavam em denunciar por medo de danos à reputação e que o quadro regulatório vem precisamente para forçar uma cultura de transparência e cooperação.}

Integridade: muito mais do que manipulação de resultados
Um dos advogados definiu a integridade como um «mandala», no qual a manipulação de resultados é apenas um ponto. Essa agenda também inclui o combate ao racismo, à homofobia, à violência nos estádios, ao assédio, à proteção da diversidade e à governança (ESG).
Ainda assim, ficou claro que a interseção mais sensível entre a indústria do desporto e a indústria das apostas é a manipulação de resultados. Se o público perder a confiança na honestidade da competição, todos perdem: clubes, ligas, operadores, fornecedores e adeptos.

Educação permanente e casos emblemáticos
Ao longo do painel, a palavra «educação» surgiu como um fio condutor. Não apenas em relação aos jogadores — desde as divisões formativas até aos profissionais —, mas também aos árbitros, dirigentes, traders, analistas de risco e equipas de conformidade das casas de apostas.
Foram mencionados casos recentes e mediáticos de jogadores de futebol investigados ou sancionados, que evidenciam lacunas normativas, tratamentos díspares e a necessidade de regras mais claras. Sem entrar no mérito específico de cada processo, os painelistas defenderam que as sanções devem ter também uma função pedagógica: deixar uma mensagem clara para o resto do ecossistema.
No encerramento, a mesa concordou que a manipulação nunca desaparecerá completamente — “onde há dinheiro, há crime”, resumiu um dos especialistas —, mas que a combinação de regulamentação, tecnologia, cooperação internacional e, acima de tudo, educação contínua pode reduzir o problema ao mínimo e proteger o que está no centro de tudo: a credibilidade do desporto.
Editado: @MaiaDigital www.zonadeazar.com