Pariente Advisory · Série de Inteligência Regulatória

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E D I Ç Ã O Nº 1 ·           Pariente Advisory Regulatory Intelligence Series (RIS)
J U R I S D I Ç Ã O         Brasil · gaming online e maturidade regulatória
D A T A                             Junho de 2026

  O Custo Oculto do Mercado Ilegal de Gaming Online no Brasil

Canalização, recuperação fiscal e a próxima fase da maturidade regulatória.

Por Alex W. Pariente · Founder & Principal, Pariente Advisory

EUA.- 07 de Junho de 2026 www.zonadeazar.com O mercado regulado de gaming online no Brasil está entrando em uma fase decisiva. A primeira etapa da regulação concentrou-se em licenças, tributação, requisitos de compliance e autorização de operadores. A próxima etapa provavelmente será definida por uma pergunta mais complexa: com que eficácia o Brasil conseguirá converter a atividade do mercado ilegal em atividade regulada, tributada, monitorada e protegida para os consumidores?

Não se trata apenas de uma questão de gaming. Trata-se de arrecadação fiscal, integridade financeira, proteção ao consumidor e credibilidade institucional.

O relatório GCI Online Gaming 2025: Global, da Gaming Compliance International (GCI),¹ estima que o jogo online não regulado alcançou aproximadamente USD 5,9 trilhões em volume de apostas — ou seja, wagering value ou handle, e não GGR — em todo o mundo. O mesmo relatório estima que, medido com base no GGR global, apenas 22% da atividade online está regulada, enquanto 78% permanece fora de marcos regulatórios formais.

Para o Brasil, isso é especialmente relevante, porque o país não está simplesmente construindo um mercado de apostas. Está construindo um dos ecossistemas de gaming regulado mais importantes do mundo.

O mercado ilegal não é um mercado separado

Uma das conclusões mais relevantes do relatório da GCI é que o chamado “mercado negro” não deve ser entendido como um universo independente. Ele opera dentro do mesmo ecossistema de consumo que os operadores licenciados.

Os consumidores estão expostos simultaneamente a operadores regulados, operadores ilegais e produtos juridicamente ambíguos por meio dos mesmos canais digitais: mecanismos de busca, afiliados, aplicativos, redes sociais, sistemas de pagamento, publicidade, plataformas de streaming, comunicações entre usuários e estratégias de venda cruzada.

A GCI descreve esse fenômeno como um “mercado de ruído branco”, no qual os consumidores frequentemente não conseguem distinguir com clareza quais produtos são regulados, quais não são e quais operam em uma zona cinzenta regulatória.

Esse conceito é altamente relevante para o Brasil. Se os consumidores não conseguem identificar facilmente os operadores licenciados frente às alternativas ilegais, a regulação por si só não será suficiente para garantir a integridade do mercado. A canalização torna-se, então, o principal objetivo estratégico de política pública.

Por que a canalização é importante

A canalização representa o percentual da atividade dos consumidores capturado por operadores licenciados e regulados. Um mercado com altos níveis de canalização gera:

  • maior arrecadação fiscal;
  • maior visibilidade para a prevenção à lavagem de dinheiro (AML);
  • melhores controles de jogo responsável;
  • maior proteção ao consumidor;
  • economias mais sustentáveis para os operadores regulados;
  • maior confiança de investidores institucionais;
  • melhor qualidade de informação para os reguladores;
  • e menor evasão para plataformas offshore ou

Por outro lado, uma baixa canalização produz exatamente o efeito oposto. Permite que operadores não licenciados concorram sem assumir cargas tributárias, custos regulatórios, obrigações de jogo responsável, controles KYC, padrões AML, restrições publicitárias ou responsabilidades locais.

Isso não é concorrência. É arbitragem regulatória.

Um cenário para o Brasil: e se o mercado ilegal representar 50%? Para fins de análise institucional, consideremos o seguinte cenário: o mercado legal de gaming online representa 50% do GGR total, enquanto os outros 50% correspondem a

atividade ilegal ou não regulada. Não se apresenta como uma estimativa definitiva do

mercado, mas como um exercício conceitual destinado a ilustrar a importância econômica e regulatória da canalização.

Sob esse cenário, cada cinco pontos percentuais de atividade transferidos de operadores ilegais para operadores regulados gerariam valor significativo para o país. Esse movimento produziria novo GGR sujeito à tributação, maior monitoramento da atividade dos jogadores, melhor supervisão AML, maior proteção ao consumidor, melhores controles de jogo responsável e maior sustentabilidade para os operadores licenciados.

Se o Brasil conseguisse reduzir a participação do mercado ilegal em aproximadamente cinco pontos percentuais por ano, poderia melhorar substancialmente a estrutura de seu mercado regulado em um horizonte de cinco anos. Uma redução de 50% de participação ilegal para 25% constituiria uma conquista institucional de enorme relevância. Não eliminaria completamente o mercado ilegal — nenhuma jurisdição madura conseguiu —, mas colocaria o Brasil em uma trajetória muito mais alinhada às melhores práticas internacionais.

O referencial internacional

As constatações globais da GCI demonstram que a atividade não regulada continua sendo um desafio significativo mesmo em mercados desenvolvidos. O estudo identifica três categorias principais: jogo regulado; jogo não regulado; e produtos com características semelhantes a jogo, mas insuficientemente reconhecidos ou regulados

— entre eles, mercados preditivos, sweepstakes, cassinos sociais, skins trading e diversas mecânicas promocionais semelhantes a jogo.

A recente postura regulatória adotada pelo Brasil em relação aos mercados preditivos demonstra que o país compreende esses riscos. O Brasil tem a oportunidade de evitar algumas das ambiguidades estruturais observadas em mercados mais maduros por meio de uma definição precoce e clara de classificações, perímetros regulatórios, pagamentos, publicidade e mecanismos de fiscalização.

O setor privado deve fazer parte da solução

Nenhum regulador pode resolver sozinho a evasão para mercados ilegais. Uma estratégia eficaz de canalização exige ação coordenada entre operadores licenciados, provedores de pagamento, lojas de aplicativos, afiliados, plataformas de publicidade, mídia esportiva, plataformas de streaming, mecanismos de busca, provedores de monitoramento de integridade, instituições financeiras e órgãos de fiscalização.

O papel do regulador é definir o marco. O papel do setor privado é contribuir para que o mercado regulado seja mais atraente, mais seguro, mais fácil de identificar e operacionalmente competitivo.

As cinco prioridades para o Brasil

  1. Tornar os operadores licenciados claramente identificáveis — os consumidores devem reconhecer de imediato quais operadores estão licenciados no
  1. Combater a evasão de pagamentos — os operadores ilegais não conseguem funcionar em larga escala sem acesso a sistemas de pagamento.
  2. Regular o ecossistema de publicidade e afiliação — o crescimento do mercado ilegal não depende apenas dos sites; depende do tráfego.
  3. Melhorar a competitividade dentro do mercado regulado — um mercado regulado sustentável deve ser seguro, mas também comercialmente viável.
  4. Usar os dados como um ativo regulatório — a próxima etapa de maturidade do mercado deve ser impulsionada por informação e análise de dados.

O que isso significa para os operadores licenciados

Para os operadores licenciados, a canalização não é apenas uma questão de política pública. É uma questão central de negócio. Se os operadores ilegais retêm uma parcela significativa da atividade dos consumidores, as empresas reguladas concorrem em condições desiguais: pagam impostos, cumprem requisitos KYC, investem em jogo responsável, submetem-se a auditorias, respeitam restrições publicitárias e mantêm responsabilidades locais. Os operadores ilegais não.

Por isso, os operadores licenciados deveriam apoiar ativamente a educação do consumidor, a publicidade responsável, a cooperação com órgãos de fiscalização, o compartilhamento de informações, a identificação de operadores ilegais e marcos regulatórios comercialmente sustentáveis.

O que isso significa para os reguladores

Para os reguladores, o principal desafio é evitar medir o sucesso apenas pelo número de licenças concedidas ou pela arrecadação obtida nos primeiros ciclos regulatórios. O indicador verdadeiramente relevante será se os operadores regulados conseguem ganhar participação de mercado frente aos concorrentes ilegais.

As jurisdições mais bem-sucedidas combinam clareza jurídica, capacidade de fiscalização, educação do consumidor, supervisão de pagamentos, realismo comercial e monitoramento constante do mercado. O Brasil tem a oportunidade de construir esse modelo.

O que isso significa para os investidores institucionais

O capital institucional avaliará cada vez mais o Brasil sob a ótica da integridade do mercado. Os investidores farão perguntas fundamentais: os operadores licenciados conseguem concorrer de forma lucrativa? o mercado ilegal está diminuindo? os pagamentos são adequadamente supervisionados? o perímetro regulatório é claro? os produtos ambíguos são corretamente classificados? os consumidores estão protegidos?

a fiscalização é crível? o marco é estável o suficiente para atrair capital de longo prazo?

Se as respostas forem afirmativas, o Brasil poderá atrair maiores níveis de investimento institucional — não apenas de operadores de gaming, mas também de empresas de pagamento, mídia, provedores de tecnologia, firmas de compliance, grupos de hospitality e investidores interessados na infraestrutura integral de entretenimento.

A oportunidade estratégica do Brasil

O Brasil entrou no ciclo moderno de regulação online mais tarde do que outras jurisdições. Isso pode se tornar uma vantagem: o país tem a chance de aprender com mercados mais maduros e evitar muitos de seus erros. Se continuar fortalecendo a coordenação regulatória, formalizando a cooperação com o setor privado e construindo uma estratégia mensurável de canalização, poderá tornar-se um dos principais casos de sucesso mundiais na conversão de atividade ilegal em valor econômico regulado.

A verdadeira oportunidade não consiste simplesmente em reduzir o mercado ilegal. Consiste em transformar atividade invisível em atividade visível; atividade não tributada em contribuição fiscal; atividade não monitorada em visibilidade AML; atividade sem proteção em proteção efetiva ao consumidor; e atividade instável em confiança institucional. Esse é o verdadeiro valor econômico oculto da canalização.

Conclusão

O mercado ilegal de gaming online não representa apenas um problema de compliance regulatório. Representa uma evasão econômica nacional. Para o Brasil, a redução da participação do mercado ilegal deveria tornar-se um dos principais objetivos da próxima fase de maturidade regulatória.

Uma estratégia disciplinada que reduza a atividade não regulada em até cinco pontos percentuais por ano poderia gerar benefícios cumulativos significativos para o Estado, os operadores licenciados, os consumidores e os investidores institucionais. O caminho não passa apenas pela fiscalização: exige uma estratégia coordenada baseada em regulação, tecnologia, supervisão de pagamentos, responsabilidade publicitária, educação do consumidor, competitividade comercial e colaboração público-privada.

Se executado adequadamente, o Brasil poderá evoluir de um mercado recentemente regulado para uma referência global em canalização, integridade de mercado e governança sustentável. Essa é a verdadeira oportunidade — e provavelmente uma das questões econômicas e regulatórias mais importantes para o futuro do gaming brasileiro.

F O N T E S  E  R E F E R Ê N C I A S

¹ Gaming Compliance International (GCI) — GCI Online Gaming 2025: Global. A cifra de USD 5,9 trilhões corresponde ao volume de apostas (wagering value / handle), e não ao GGR; a distribuição 22%/78% é medida sobre o GGR online global. A GCI é uma firma independente de pesquisa e inteligência de compliance especializada em mercados de gaming regulados e não regulados.

Disponível para assinantes em www.gamingcompliance.com.

S O B R E  O  A U T O R

Alex W. Pariente é fundador e Principal da Pariente Advisory. Reúne quase três décadas de liderança executiva em gaming, hospitality e desenvolvimento de resorts integrados nos Estados Unidos, na América Latina, no Caribe e na Europa. Atuou como Executive Vice President da Wynn Resorts — integrando as equipes de abertura do Wynn Las Vegas e do Encore Las Vegas — e como Executive Vice President de Casino Operations & Marketing na abertura do Baha Mar (Nassau), o maior resort integrado do Caribe, com experiência adicional na Caesars International, Caesars Palace Las Vegas, Hard Rock International e Seminole Gaming. Possui experiência regulatória direta em Nevada, na Comunidade das Bahamas, na República Dominicana e no marco emergente do Brasil.

A Série de Inteligência Regulatória da Pariente Advisory traz análises estratégicas e institucionais sobre os mercados de gaming mais relevantes da região. As próximas edições abordarão Uruguai, Chile e outros mercados estratégicos da América Latina e do Caribe.

S O B R E  A  P A R I E N T E  A D V I S O R Y

A Pariente Advisory é uma plataforma independente de assessoria estratégica a serviço de principais, investidores, family offices e operadores em hospitality, gaming e desenvolvimento de resorts integrados. Fundada por Alex W. Pariente — ex-alto executivo da Wynn Resorts, Caesars International, Hard Rock International e Seminole Gaming —, a firma assessora na interseção entre capital, regulação, desenvolvimento e operações. Cada mandato é conduzido pessoalmente, de forma confidencial e ajustado à situação específica. A Pariente Advisory não presta serviços de assessoria jurídica, fiscal, de intermediação (brokerage), de colocação (placement) nem de investimento regulado.

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